A língua padrão e a não-padrão
 Confusões e usos


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Não tenha vergonha de utilizar a língua que você aprendeu a falar desde pequeno.
 Ela faz parte da sua identidade
 
As línguas em geral surgem na interação entre os falantes que nela deixam suas marcas e a utilizam da melhor forma possível para atender as suas intenções. Sendo assim a língua é um órgão vivo que pode ser moldado e que vai se modificando com o passar dos anos. Mas calma! Para entendermos melhor o que acontece vejamos um pouco da história da língua portuguesa.
 
Não voltaremos ao início dos tempos porque de lá não temos registros claros de como surgiram e se organizaram os primeiros idiomas. Esses registros só começaram a existir com a invenção da escrita por volta de 3500 a.C. Vamos avançar um pouco mais na história até a época romana. Os romanos era um povo que dominou grande parte do que hoje conhecemos como Europa e parte da Ásia e da África. À medida que eles iam dominando esses territórios, eles espalhavam a língua que era usada em sua capital, Roma, o latim. Como ele não era imposto como língua oficial pelos dominadores, ele era aprendido e ia se adaptando como a incorporação de novos sons, palavras e formas de expressão em conseqüência do contato direto com as línguas dos nativos e com os usos e necessários de cada povo. Com o tempo essas diferentes formas de se falar o latim se distanciaram tanto da maneira como o latim estava sendo falado em Roma (já que esse também foi se alterando com o passar dos tempos e também não era mais igual do que foi levado a outras partes do império) que elas passaram a ser consideradas outras línguas. Foi assim que muitos anos após o fim do império romano as variantes do latim que existiam na época levaram o nome do que hoje conhecemos por italiano, espanhol, português, francês, romeno, etc. Porém, assim como não era possível que em todo território romano se falasse latim da mesma maneira, era impossível que todas as pessoas desses territórios falassem da mesma maneira. Na Itália, por exemplo, as pessoas até hoje falam os dialetos (variantes específicas de uma determinada região) que aprendem em casa (e que são muito diferentes do que conhecemos como italiano) e aprendem a falar o italiano padrão na escola. É comum as pessoas em suas regiões utilizarem o dialeto que aprenderam desde crianças e em outras regiões, falando por telefone ou escrevendo utilizem o dialeto que se denomina padrão. Mas quem decidiu ou decide qual é o dialeto padrão a ser seguido? Essa é uma questão bastante política e continua sendo assim até hoje.
 
Nessa época com o inicio da união dos diversos reinos para a formação dos países os governantes tinham que escolher uma língua que representasse o seu país e seu povo. Antônio de Nebrija em 1492 apresentou a rainha Isabel da Espanha um compilado de regras e descrições da fala dela e do seu povo de Castilha. Isabel gostou tanto da idéia que instituiu a língua descrita por Nebrija como a língua oficial da Espanha, o castelhano, hoje também conhecido como espanhol. O mesmo aconteceu na Itália que escolheu a variante da Toscana para ser chamada de italiano. As razões que levaram a essa escolha também foram políticas, uma vez que essa era a região mais rica da Itália e um dos principais pólos artísticos e culturais da época. Foi com esse dialeto também, que Dante escreveu um dos livros mais importantes da literatura italiana, a Divina Comédia. A escolha então pela variante a ser seguida ou denominada padrão não tem a ver com certo e errado, com bonito e feio, nem mesmo com mais ou menos importante, mas com uma decisão política.
 
A ideia de que todos na Itália falam italiano está errada assim como a idéia de que todos nós de norte a sul do Brasil falamos o mesmo português também está errada. Cada grupo social, étnico, regional utiliza a língua de uma maneira e se identifica com essa maneira. A língua ainda pode ser utilizada de diferentes maneiras mesmo dentro de um mesmo grupo por homens e mulheres; jovens, crianças e adultos, etc. Essa língua única que todos pensamos ter que usar e falar não e iste, é apenas uma ilusão.
 
O que é isso então que aprendemos na escola e que chamam de português? Como a língua é muito variada e dinâmica, ou seja, muda o tempo todo e é (re)feita a cada conversa por quem a utiliza, não podemos esperar que pessoas de diferentes partes do mesmo país e de realidades tão diferentes se entendam. Logo, para isso foi escolhida uma das variantes usadas no Brasil e foi decidido que para facilitar a comunicação entre essas pessoas, em algumas situações seria aconselhável o uso dessa língua padrão, ou seja, igual para todos. Essa variante ou língua é a utilizada nos meios de comunicação, como jornais, revistas, internet, etc. Alguns desses meios de comunicação, inclusive, publicam manuais de como seus jornalistas e repórteres devem falar e escrever. Assim como todas as outras variantes ela também é dinâmica e muda com o tempo, sofrendo alterações dependendo da formalidade esperada, se ela está sendo escrita ou falada e até mesmo sofrendo influência de alguns regionalismos. Por tanto, mais importante do que decorar regras é prestar atenção a como a língua está sendo utilizada na mídia e no seu ambiente de trabalho. Essa será a forma mais eficaz de aprender a língua padrão a que chamamos português: lendo jornais, livros e revistas; vendo os tele diários e observando a forma como as demais colegas de trabalho falam e escrevem. Afinal de nada adianta sabermos regras e regras se não conseguimos produzir um bom texto, de qualidade, que transmita de forma clara as intenções de quem o escreve.
 
 Finalizando, então, essa nossa breve conversa sobre as línguas padrão e não- padrão, vale lembrar que se não existe uma única variante certa, não existe motivos para que as pessoas não utilizem as variantes que dominam em conversas informais. É claro que ao escrever um documento ou um e-mail, ou nas relações de trabalho que exijam certa formalidade é recomendado que se faça uso da norma culta, porém ao chegar em casa, com um grupo de amigos e nas mais diversas situações nas quais não se exige esse formalidade é preferível que se utilize a língua em que fomos criados e na qual todos nos sentimos mais a vontade. Não há problema, e nem está errado dizer frô (flor), probrema (problema), as menina, Ele trouxe esse livro para mim e você e tantas outras consideradas não padrão ou até mesmo erradas por muitos. Assim como não se vai a praia com traje esporte fino, não se vai a um casamento de biquíni. Cada variante deve ser utilizada no lugar adequado, a padrão nos contextos de trabalho e a não-padrão nos contextos informais.
 
 Se você quer saber mais sobre a língua padrão e a não-padrão leia: A língua de Eulália de Marcos Bagno publicado pela editora Contexto. Ou ainda, o Preconceito Lingüístico do mesmo autor publicado pelas edições Loyola.

Autores: Gabardo, Maristella; Moraz, Caterine Pereira
PDE PRONATEC – Instituto Federal do Paraná





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